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13 respostas sobre “13 Reasons Why”

Voltei e com tema polêmico!

É, quem aí já assistiu a nova série da NetFlix, “13 Reasons why”?

A Série é baseada em um livro do escritor Jay Asher,publicado aqui no Brasil pela Editora Ática.

Tanto o livro como a série contam a história de Hannah, uma garota que se matou e deixou 8 fitas gravadas com 13 porquês pelo qual tirou sua própria vida. A história é toda narrada com foco em Clay Jensen. Apartir do momento que encontra o pacote com as fitas cassetes, agora ele precisa escutar tudo para saber como ele contribuiu para a morte de Hannah.

Confesso que quando li o livro não curti muito, muitas coisas ficaram mal explicadas, não gostei do rumo que a história tomou. A série, já gostei um pouco mais. Muitas perguntas surgiram na minha cabeça e acredito que na cabeça de vocês também. Então, resolvi conversar com uma amiga, que é psicóloga e tem estudos e grupos que falam sobre o suicídio. Ela topou responder as minhas dúvidas e logo logo vocês encontraram mais coisas com ela aqui.

Antes de continuar, quero deixar o site do CVV | Centro de Valorização da Vida. Ele realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, email, chat e Skype 24 horas todos os dias. Ligue 141, e não se esqueça SUA VIDA IMPORTA!

Agora, quero apresentar a querida Táina Sena, psicóloga e pós Graduanda em Psicoterapia Analítica. A menina manda muito bem e estou muito feliz com os trabalhos que estamos fazendo juntas! <3

VAMOS LÁ!

Antes de responder suas perguntas, gostaria de agradecer pela oportunidade de estar falando sobre esse tema que é tão urgente e por todo o trabalho que você vem fazendo. Gratidão.

1 – Você, como psicóloga, acha certo a culpabilização dos alunos para com a morte da Hannah? (Com exceção do Bryce, por motivos…)
Isso da culpabilização mexeu muito com as pessoas né?! Estava discutindo em um grupo que estuda sobre o suicídio, inclusive, esse desconforto que a série gerou. O quanto ficamos incomodados quando nos apontam algo, no sentindo de que não gostamos nenhum um pouco de olhar o que está em nossa sombra. Uma vez li uma pesquisa que comentava sobre o povo brasileiro ser racista e não aceitar isso. Justamente porque não queremos olhar para nosso lado sombrio, que existe e está bem ali. Tanto que na pergunta você já tira o Bryce, porque ele fez algo que consideramos grande, no sentido de totalmente não aceitável. Mas as atitudes dos outros poderiam ser facilmente feitas por nós. E aceitar que isso pode ferir tanto uma pessoa é perceber que as vezes não somos os mocinhos, mas sim os vilões, mesmo sem ser consciente. Acho que foi justamente esse desconforto que fez com que muitos ficassem mexidos com a culpabilização.

2 – O que a Hannah passa, milhares de jovens passam diariamente. De quem é realmente a culpa? Pais, escolas?
Então… talvez a culpa seja nossa. De todos. Da cultura que temos, do comportamento que temos… acredito que a questão aí está bem mais em baixo. Não é questão de apontar o dedo para alguém, e sim para si, no sentido de pensarmos “Como podemos evitar isto?”. E trabalharmos como um coletivo.

3 – Como criar um ambiente bom para se frequentar, sem ter problemas com o bullying?
A escola precisa entender que ela tem papel decisivo no manejo com situações de bullying. Por isso a instituição precisa levar o tema mais a sério. Normalmente o que se vê são escolas que buscam minimizar este ato e até mesmo esconder.
Imagine como seria já ter um espaço para debates sobre respeitos, tipos de “brincadeiras”, apelido e questões de gênero desde a infância.

4 – Ao ler o livro, senti que ela tinha feito mais por vingança. Não que ela não estivesse sofrendo, pois sei que estava. Qual a sua opinião?
Não li o livro, então não tenho como opinar.

No suicídio, e em outros temas, precisamos ter cuidado para não colocarmos nossa percepção como correta. O suicídio é muito subjetivo. Pode ser que sim, que ela de fato quis se vingar. Assim como pode ser que ela só tenha desejado esclarecer como a vida dela foi sendo destruída. Ou pode ser os dois ou até mesmo nenhum deles.

É complicado no suicídio porque a pessoa morreu. E ela é a única que sabe o que estava vivenciando e sentindo. Só ela sabe da luta que teve, da dor que sentiu… nós só pressupomos.

5 – Li em alguns lugares que estavam comparando a Hannah com uma mente perigosa. Chegando a comparar sociopatia/psicopatia, pelo fato dela ter gravado as fitas antes de se matar. O que você pode me dizer sobre essas suposições?
Então, não vejo indícios disto nela. Me questiono até se essas comparações foram feitas por profissionais, porque infelizmente existe banalização de alguns termos, então é preciso cuidado a usá-los. Existem casos de suicídio onde as pessoas pensaram minuciosamente sobre o ato, e isso não faz delas sociopata ou psicopata.

Algumas pessoas deixam cartas, vídeos etc. Tem um caso no Brasil de um homem que deixou quase um livro. Foram várias páginas falando do que o levou ao ato, de como ele estava lidando com tudo aquilo etc. E no final ele escreveu que deixava aquele documento para que pessoas pudessem estudar e ajudar outras pessoas, porque para ele já não se tinha ajuda.

6 – Alguém conseguiria impedir um suicídio, quando a decisão já está tomada?
Essa é uma pergunta interessante, problemática, delicada e difícil de responder (rs). Me deparei com esta questão quando estava escrevendo meu TCC (trabalho de conclusão de curso) na época da Faculdade. E estudando suicídio sob o olhar de um Psicólogo Junguiano, vi em um livro o psiquiatra Carl Gustav Jung (grande pensador e fundador da Psicoterapia Analítica) responder uma questão sobre como lidaria com a intenção suicida de um paciente, e ele respondeu que talvez não conseguisse impedir a morte, caso todo o ser da pessoa caminhasse para aquele ato, mas que ajudar a resgatar aquela vida seria imprescindível (JUNG, 2002). Então seria isto, se a pessoa estiver tomada por um desejo tanâtico, talvez não se tenha como impedir a morte. Mas se pode mostrar a esta pessoa que a morte física não precisa acontecer. Que, de fato, se precise de uma morte, mas de uma morte simbólica. Morte de um comportamento, de um pensamento…

Então sim, podemos auxiliar a pessoa a perceber outras saídas além da morte física.

7 – Eu tenho medo que abordagens como essa, tenham um processo prejudicial na cabeça dos jovens. Medo que comecem a escrever cartas, gravar fitas, fazer vídeos, tudo para culpar seus agressores. É uma preocupação válida?
Sim. Porque cada um verá a série de uma maneira diferente, então pode sim ter aquela pessoa que ao assistir tenha a ideia de fazer algo parecido.

Assim como teve aqueles que assistiram a série e passaram a ter um outro olhar sobre o tema, e agora considera como real quando um amigo diz que perdeu sentido na vida e que quer morrer. Sem falar no aumento de 100% na procura pelo CVV (Centro de Valorização da Vida). Somos seres complexos e únicos, então nossas vivências são únicas para cada um. Por isso encontramos agora várias percepções sobre a série.
O legal disso tudo é que o suicídio está sendo discutido. Aqueles que mal sabiam sobre o tema estão curiosos e começando a estudar. Isso é um grande passo.

8 – Acho que em todos os episódios deveria ter uma mensagem sobre procurar ajuda caso estivesse se sentindo como a Hannah, com número de contato, como o valorização da vida. É um pensamento correto?
Também acho que tenha faltado algo neste sentido. Talvez com o Alex poderia ter uma ajuda, uma ONG ou um profissional que o ajudasse, justamente para mostrar o público que se tem serviços e pessoas capacitadas para isto.

9 – Que dica  você pode dar para pessoas que passam pelo bullying e cyberbullying todos os dias?
Queria muito ter uma frase motivacional mágica que tirasse todos desse sofrimento, mas não tenho. O que posso dizer é que vocês não estão só e que por mais que acreditem que nenhuma pessoa é confiável e que todas lhe farão mal ou olharão “torto”, peço que confiem quando eu digo que sim, ainda se tem pessoas que mereça confiança e que amam vocês. Sim, ainda tem pessoas que querem lutar com e por vocês. Procurem casos de superação, sejam fortes e procurem ajuda. Vocês não estão sozinhos.

10 – O que o suicídio representa na cabeça da pessoa que está cogitando tal coisa?
O suicídio é único para cada pessoa.

Pode ser que para um represente uma fuga, para outro uma vingança, para outro uma punição etc.

Cada pessoa vivencia o suicídio de maneira diferente.

11- A Hannah, sempre afastava quando tentavam ajudar. O Clay não sabia o que fazer para ajudar. Quando a pessoa se afasta de pessoas que estão tentando ajudar, o que devemos fazer?
O movimento de afastar alguém já mostra que tem algo acontecendo. Então insista. Seja aquela pessoa que mostrará que estará ali caso ela ou ele precise. Faça com que a pessoa perceba que não está só.

E se mesmo assim a pessoa se matar, não se culpe. Existem coisas que vão além do que podemos fazer. E procure ajuda para você. Porque para cada suicídio, uma média de 6 pessoas são profundamente afetadas. Sentimentos de culpa e raiva os invade de uma maneira devastadora. E aquela pergunta do “Por que?” martela tanto que machuca.

12 – Durante toda a história, o Alex e Clay tiveram comportamentos suicidas. O que me deixou preocupada. Como saber que alguém próximo está passando ou pensando nisso?
O afastamento dos amigos ou de atividades que antes gostavam pode ser um sinal de que tenha alguma coisa acontecendo.

Considere como real quando alguém diz que perdeu a vontade de viver ou que as vezes sente o desejo de morrer.

Encontramos muitos pré-conceitos a respeito do suicídio, o que não ajuda. Um deles é o famoso “Quem quer se mata, não avisa”. Às vezes eles avisam sim.

13 – O porquês da Hannah começaram a sofrer com as fitas, mas mesmo assim continuaram a fazer Bullying entre eles. Principalmente com o Tyler (fotógrafo). Eles abusaram dele várias vezes antes e piorou depois. O comportamento dele, no final da série, é bem preocupante. Parece que ele está criando alvos, inclusive tinha armas no quarto dele. E logo depois Alex aparece com um tiro na cabeça. O que você pode falar sobre ele?
O Alex foi afetado com o suicídio da Hannah. O que parece é que ele foi consumido pela culpa e não encontra outra alternativa para se redimir ou lidar com toda a situação a não ser a morte.

O Tyler me fez lembrar dos casos de massacre quando um aluno ou ex aluno voltava ao colégio e assassinava os colegas ou estudantes daquele ano. O que podemos considerar como uma consequência do bullying. Esse é um ponto bacana para mais debates, inclusive.

E por fim, não é bem uma pergunta, mas você pode nos deixar alguma mensagem sobre como evitar pensar sobre o suicídio?
Às vezes ficamos parcialmente cegos e não vemos outra saída a não ser esta única que se escancara a nossa frente. Mas não quer dizer que não existe outras. Nós só não enxergamos no momento. Talvez porque a dor esteja tão forte que apertamos os olhos. Nesses momentos precisamos buscar alguém que nos ajude a enxergar as tantas portas que ainda temos.

Confie.

<3

Obrigada querida Táina pelo seu carinho e ajuda!

E não se esqueçam, estamos aqui para ajudar! E se precisarem de ajuda, ligue 141! #VoceImporta

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Post Author
Lari Azevedo
Larissa Azevedo, ou apenas Lari, nasceu em 1988, na cidade de São Paulo, onde ainda reside. Desde pequena é apaixonada por arte, cores e literatura. Formada em Design Digital, é diretora de arte em uma agência de Comunicação. Além disso, é colaboradora do blog Burn Book e, como fuga, lê todos os livros que pode, escreve e brinca no Photoshop nas horas livres.

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